segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Envaidecidos.

Pusera-se a falar
Com uma sequência de tempo
Muitos sons
Persuasivos,
Esclarecidos (ou escurecidos?).

Instintos ocultos
No palanque dos livros lidos
Excesso de som
E falta de tato

Muitos gostariam de vestir sua roupa
Estar com aqueles velhos amigos
Falar de Jobim e Quentin
Escrever ideias e dizer
O excludente por trás de um clichê

O Whisky aquece
O vento antigo esfria o lábio
O tempo passa
E a palavra mais gélida que
Os pés fustigados pelo tempo
Dizem mais do que
O sentido sente

Outra menina espia
Através de finos olhos
Uma porta fechada
Um beijo sem pena
Uma panela tampada
O pouco muito
Palavra não falada
Sentindo por todos os lados
Na ponta do lápis, uma passada.

E eu não gostaria de ser a primeira garota
Acompanhada
Mas sem vento,
Sem sopro
Sem nada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Adeus, amigo.

Olhei para ele em plena angústia.  Este que outrora foi parte inesgotável de inspiração, agora reflete impaciência. É solitário e cabisbaixo, contrariando sua dura e forte capa de antigamente.

Através de uma humanização não linear, há alguns anos havia sido sustentação para meus pés tão voadores. Hoje, uma rocha se sobrepôs ao vazio que meu medo gerava, e devo confessar como quem confessa um pecado: não lhe sinto mais como parte minha.

Um livro é um amigo de sangue. Um livro branco, de letras simplórias e roxas, abandonado à minha relutância. Reluto em aceitar tão drástica mudança – ainda que contente pelo casamento entre eu e eu. Aquele amigo em folhas ainda jovens não floresce mais como antes, nem instiga lágrimas a estes olhos ainda filosóficos, mas finalmente focados. Hoje minha linguagem é mais direta – pragmática – digo com dificuldade porém com um leve sorriso. Hoje não me escondo sob o ego trancado numa gruta, hoje escrevo para todos e com letras garrafais. E estas palavras sim me levam a algum lugar.

Meu livro preferido não é o mesmo, é isso. Como é difícil aceitar que seu amigo de anos já não preenche suas convicções. Acabou! Foi um baque estrondoso mas libertador. Acabou para aquele que é uma porta a um passado vassalo de si mesmo, permissivo, sinestésico; muitos diriam que até bonito, mas sem dúvida prisioneiro.

Com uma tristeza resignada, pego e levo-lhe até a prateleira. Dói assumir o crescimento. Evolução é abandono. Dói saber que aquelas palavras sobre o vazio nunca o atingirão como antes. Dói se libertar! Mas é dor sexual, dor de encarar o prazer, a culpa, o medo e a vida nos olhos.

Deixo-lhe entre dois outros livros, despedindo-me com ternura, mas sem medo. Não mais relutante, escolho outro volume, de outro autor; de preferência um nunca lido. Uma vida nova, de enfrentamento. Leio um trecho e caio de sono. Amanhã é dia de renascer.

sábado, 7 de julho de 2012

Havia.

Havia alguém sentado ali
Urgia
Como a fome
Havia alguém que era eu
Sentado no vão do escuro
Havia um corpo nauseado
De fogo cessado 
Hoje branco
Quase nulo


Havia alguém que era sombra 
Cova
Passo
Circo
Havia o reflexo de tantas coisas vãs
Gerentes, mentiras
Vinhos tintos


Havia o cerco das lojas
A cor dos terrenos
A busca do grande
O fundo dos olhos


Havia meu irmão sentado
Do outro lado da rua
Mas não se viu
Pelo barulho dos carros.

Multicores







Uma vontade me toma
De escrever
Crer
Perceber


Dentro da forma itinerante
Um anjo me sopra 
Querendo cores
Sobre a mesa cheia
De papéis apinhados de códigos
Lógicos
E vãos
Potencialmente acronológicos


Algo me grita 
Como um tiro de festim
Minhas pétalas me buscam
Quando mesmo as deixei
                          [cair assim?


Tão no chão
Tão lindas para fora de mim


Quero-as de volta
Em letras azuis, pretas, vermelhas
Em cadernos
De poesia crua
Destoada das horas
E de ordens contadas
Como gritos maternos
Quando brincavas na rua.

domingo, 20 de maio de 2012

A senhora.

Passam carros
Luzes, vendavais
Sob o céu azul de maio


O que há por baixo 
[ dessa massa de chão
Deuses, mestres, pais?
De onde vem a força que sustenta
Tão bela sincronia
De pernas
Mãos e rugas
Da senhora que austera se insinua
Rude, bruta
Olhos firmes de um preto cravado
E uma beleza tácita e crua

Tamanha força se entrega
No mexer de ossos
No balanço da carne
Vermelho
No sangue que corre
Cândido
Num pousar de pássaro
Alvo
Sem desalento

A senhora é tão vida
Que cansa os olhos mais pobres

Fecha o trinco do portão
De uma casa humilde e antiga
Olha o gato que passa avoado
Olhos de menina, coração sagrado
Tudo me enchendo os olhos de chuva limpa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A camponesa e os espinhos.


A busca e o erro
Permeiam sentimentos
Obscura a face do amor
Que não traga um desalento
Tanto quis e sonhei
Com a beleza que tocasse o vento
Pássaro tímido cujo canto
Me tocasse o pensamento
E numa batida,
Trovoada de notas
Mil saudades num lampejo

E são os beijos
Que tanto me procuram
E por tão ingênuos
Não desconfiam
Do banquete e da fartura
De belezas que preenchem
Como lua cheia em noite escura



Ao não pensar no querer 
Quis buscar uma saída
Não houve modo senão
Entregar-se

Às doces rosas distraídas


E se só de rosas 
Um amor não vive
Meus duros espinhos
Tocar-te-ão
Contendo a fuga, confessarei
Que és a mais linda camponesa
Colhendo espinhos pelo chão.

domingo, 11 de março de 2012

História de muitas histórias.


Você samba religião?
Nós fervemos rock’n’roll.
Há um detalhe no corpo da nêga
Florida de frevo em estupor.

Se não fosse aquela música clássica
Não poderia beber da água sertaneja
Dançando no céu como um trance
Ofecerendo-me uma cerveja

Mas há dentro das boates
Um bad romance que me faz tremer
Como um festejado hip hop
Cultura jovem e sábia
Cuja glória é realidade
E está no que há de ser

Não quero ser certo
Não me sinto errada
Sou viva, como és
O porteiro fã da Tropicália.

E a minha prece se faz
Num caminhão de ceticismos
Assisto o teatro dos cânones
Que fazem a história
Dos passos do cristianismo

Quem sou?
Jovem, puro ou amoral?
Ou serei apenas uma consequência
De uma sopa primordial?

O que trago no peito são paixões
Tão diversas quanto a fonte
Das sabedorias que confrontam
E distantes fazem ponte

Se do breu vim
E para o breu vou
O respeito pelo véu que te cobre
E pela força da história que te cola a pele
Talvez formem uma resposta
Para simples e próximos seres
Que de tão ausentes em si mesmo
Ao invés de elevar
Ferem.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O fogo e a mendiga.



            Virei a esquina lentamente, e meus olhos se enevoaram com uma bola difusa de fumaça preta encontrando o ar neutro daquela tarde. Não pude notar, de primeiro momento, tudo o que realmente estava em volta daquele furor reluzente. A prata da pickup se misturava a um preto fúnebre que me prendia, juntamente com o cheiro de desespero que aquela cena exalava.
            Ao lado, em frente e por toda a quadra dezenas de pessoas se amontoavam, e depois de sair da minha sensação de torpor, pude imaginar que não seria diferente. Pessoas sentem uma irremediável atração por tragédias. Cada uma vendo no reflexo daquela chama, um pouco de si que também queimava.
            Gritos e comentários fervilhavam ainda mais a cena, e o calor daquelas pessoas também passou a me queimar por dentro quando soube o porquê do ocorrido.
     - Foi uma mendiga desgraçada que botou fogo no papelão, o fogo se dissipou e o carro começou a pegar fogo.
- É! Pegaremos-na  à madeirada quando a vermos novamente.
- Você não viu? – em tom de fofoca - É aquela banguela com dread no cabelo. Acha que pode? Acabar com um patrimônio desses. Eu matava.

Matar alguém já morto – pensei. E olhei para o lado oposto, fugindo daquela cena que já não podia me dizer nada, estava estagnada. Vaguei meus olhos em círculos procurando uma saída, e parei meu olhar  na praça, que ficava do outro lado da avenida principal, apertei os olhos. As vozes aos poucos sumiam, era como se eu me transportasse para o lado daqueles cabelos duros e presos numa velha tiara de cor azulada; daquele corpo dando forma a alguns pedaços de roupa. As mãos que seguravam uma coxa de frango eram sutis – a dor do mundo a ensinou a ser delicada com as coisas ao redor, era de uma delicadeza respeitadora. Pude sentir um tremor naquelas mãos. A boca sorria não de escárnio mas de surpresa por ver aquelas nuvens negras chegando ao topo dos céus. Comia com vontade, era o fruto de sua vontade que a mantinha viva. Era a força dos seus dentes, suas mandíbulas animais que não deixavam seu corpo padecer. Mordia.
Pediu dinheiro a um transeunte e este lhe negou. Falou alguma grosseria. Ela continuou a morder seu pedaço de carne, aceitava aquela resposta com tranquilidade, como que intuindo que não era por mal, afinal nem todo mundo é feliz. Nem todo mundo é feliz - repeti para mim mesmo. O fogo da vida corroía aquela mulher, e não havia funilaria que consertasse tal  estrago.
De repente, senti que estava voltando para o mundo do carro queimado, quando ouvi:
- Eu matava.

Matar quem sente a morte todo dia até que não é uma ofensa. Perdoei aquela injúria, afinal nem todo mundo é feliz.

domingo, 14 de agosto de 2011

Flores de família.

Tentou se despedir do pai mas não conseguiu, sentia-se bloqueado dentro da ausência de gestos e palavras. Viu a mãe descendo a escada da lavanderia, tinha diversas roupas nas mãos e uma aparência cansada. Mesmo de longe pôde sentir o cheiro de amaciante barato. Sempre que sentia aquele cheiro em suas roupas, lembrava da mãe e das suas mãos duras de tanto esfregar roupa, como ela mesma dizia.
Atravessou o corredor em direção à porta, com a pressa e o corpo descompassado tocou o vaso de violetas sobre o armário que antecedia a entrada da sala de estar. O vaso cambaleou, e embriagado pelos seus próprios sentimentos também cambaleantes, tentou sentir o cheiro daquelas flores, quando ouviu a voz alta da mãe:
- Não vá quebrar meu vaso novo, menino desastrado!

Esforçou-se mais um pouco na tentativa de sentir um mísero odor que fosse, sem sucesso. Ajeitou o vaso com certo nervosismo, e saiu em passos tortuosos.
Ao sair para a rua sentiu o vento bater em seu rosto como um afago delicado. Olhou o céu e, como num cumprimento, sorriu.
Seguiu em direção ao centro comercial, queria ver gente, ouvir palavras quentes saindo de bocas trêmulas, firmes ou frenéticas. Queria esbarrar em senhores, mulheres, crianças e sentir assim o encontro de espíritos vigorosos. Queria sentir, sentir...
-Sou uma pessoa de sorte - pensou quando procurou no bolso por uma nota que lhe trouxesse a possibilidade de comprar uma bebida no “Boteco do Valdo”. 

Adentrou o estabelecimento às duas da tarde, e só lembrou de sair no meio da noite com um sorriso no rosto e quatro amigos recém-feitos. Três senhores aposentados, e uma moça um tanto triste de meia-idade.
Já estava pagando sua parte quando Beto, aparentemente o porta-voz do novo grupo de amigos bêbados, resolveu propor um último brinde em sua homenagem:
- Você é genial e tem um coração imenso. Seus pais tem sorte, meu filho mal conversa comigo. Às vezes nos sentimos estranhos na presença um do outro. Parabéns mais uma vez.

Saiu do bar com um embrulho no estômago, lembrou que tinha que voltar para casa. Voltou andando um tanto trêmulo pela rua, o que refletia o efeito da cachaça e do odor das flores coloridas da rua. Era um cheiro estonteante, queria levá-lo para sempre com ele. Não queria entrar em casa. Continuou andando querendo as flores e a redenção. Quanto mais perto de seu portão chegava, menos cheiro sentia, até que este cessou. Abriu o portão.
Pela janela notou que os pais assistiam televisão, cada um em um sofá. Entrou e não foi notado. Ainda sob o efeito da tarde, pensou em dizer o quanto ela havia sido rica. Pensou em dizer como ele mesmo era rico de sentimentos e sensações. O som da televisão estava alto, parecia mais alto que seus próprios pensamentos.
Vencido por um cansaço que emudecia suas emoções, passou pelo corredor com um rosto mais pálido que o usual, arfava. Tentou sentir o aroma das violetas numa brusquidão heróica, não conseguiu. Arrumou o vaso novamente com perfeição no centro da mesa. Seria o centro da mesa o centro de que universo? Sentiu seu corpo se fechar como se prestes a entrar naquele vaso. Entrou no quarto. Emudeceu até o fim do dia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Os curativos entre nós.


Passam-se as horas e eu não recebo sua ligação de boa noite. Suas últimas palavras foram  hostis , envolviam uma mistura de orgulho e tristeza.

Num amor intenso sempre há, revestido por todas nossas negações inconscientes, uma raiva vermelha pulsante. É a raiva do corpo não abraçado, da mão frouxa no cinema, do beijo corrido da manhã. Quando amamos queremos tudo! Não bastam as palavras e demonstrações , queremos o corpo, a carne e todo o invólucro de sentimentos.
Dentro de todos os beijos quentes e ternos, há um passado que castiga. Há um namoro mal acabado, um pai separado, um amigo magro de amor. Logo nada parece  mais ideal do que essa proteção (diria até adaptativa) de se rebelar contra o parceiro.
O grande problema é que esses arranhões não só machucam na hora, como deixam marcas na pele. No que ouço e vejo de você, está tudo o que sou e fui também. Estão meus caminhos passados, e as cores e dores tão bem guardadas por trás de meus sorrisos sinceros, porém não sempre passíveis.

O machucar-se mútuo parece tão perfeito para nossa intuição tantas vezes sedenta de segurança, mas é tão estúpido magoar. Ferir o outro é o resultado mais grotesco de nossa falta de habilidade com nossos próprios sentimentos. Quem fere não consegue enxergar o amor próprio e o alheio quando ele mais precisa ser visto. Quem fere não aguenta a força do ‘não’ do passado, e retruca com violência o presente que é novo, fresco e amoroso. Quem magoa manca sentimentalmente, e a verdade é que, enquanto andarilha, tenho precisado de uma bengala.
No quadro pendurado na parede branco gelo, vejo a imagem de nós de mãos dadas, nos querendo muito, e lutando bravamente para nos mal querer. É nosso quê, por excelência humano, querendo saltar a todo custo: a fraqueza.

Quem fere é idiotamente humano e ainda assim - graças a uma dualidade que me traz vigor e esperança -   consegue manter um amor bonito e imenso dentro do peito.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O sim e o não do amor.

Há tantas esposas
Noras, mães, amantes
Que eu não saberia dizer
Onde repousa o verdadeiro amor


Uma pequena menina
Ouviu na escola
Dezenas de histórias
Sobre príncipes enaltecidos
Em cavalos e espadas
Buscou no espelho
Espelho meu!
A posição, peso e sorriso
Que a tornariam
A mais bela 
De seu reino suburbano
Nada achou
Uma nova perspectiva criou


Já não importava
Que seus pais brigassem
Que os pais de amigos
Divorciassem
Sabia que o amor
É uma maçã envenenada
Que só os ingênuos conseguem comer
E depois de uma fina sensação de morte
Voltar a viver
Mas pai, mãe e mundo
É necessário crer e querer


A pequena reunirá tudo
Tomará nota do observado
E assim não o fará
Bem sabe 


Não viverá de carros
Pankec, tríceps ou status
E encontrando o cheiro do amado
Dentre as flores que vai plantar
No singelo e belo jardim
E nos pequenos versos 
Que em suspiros escreverá
Deixando marcas em fitas de cetim
Terá vivido o mais aclamado sentimento.
Sem ao menos dizer sim.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O ladrão da liberdade.




Ivan acordara sentindo-se rejuvenescido, há muito que não se sentia daquela maneira. Ele, que de tanto pensar em si e apenas em si, havia esquecido de viver. Tirava o atraso da sua vida, como num período de férias depois de cinco anos ininterruptos de trabalho. Estava apaixonado por sua namorada, havia largado um emprego que andava lhe causando úlcera. Agora beijava a mãe longamente, vivia com poucos recursos e muita riqueza no olhar.

Foi ao sair do quarto que olhou para seu cofre. Tinha uma aparência triste aquele cofre prateado, refletia seu velho consumismo, suas velhas drogas, sua não mais presente vida regada a aparências. Resolveu, num ato simbólico e extremamente vivo, destruir aquela memória que lhe feria a alma. Abriu o cofre com destreza, eram seis números e duas letras o seu código.

Olhou numa mistura de pavor e rejeição para aquelas notas amontoadas, olhou como para um resto de comida que devia ser jogado fora, antes que apodrecesse e trouxesse consigo baratas e ratos. Espantava com louvor as baratas e ratos que haviam, por muito tempo, invadido sua vida. Estava limpo, puro, e de repente prestes a encarar um ato heróico.Encheu uma sacola escura com o que devia somar três mil reais, limpou o cofre, e seguiu a passos firmes para o carro. Enfiou a quantia no porta-luvas, sorridente. Ligou o carro, saiu.

O dia estava de um azul limpo, sem nuvens e as ruas ainda estavam vazias. Pegou uma das avenidas principais da cidade, olhando com atenção para os semáforos, pontes e pontilhões. Procurava sua libertação, a pessoa que iria lhe arrancar de vez aquele peso da vida miserável que havia lhe corroído por tanto tempo. Achou. Achou com seus olhos rápidos um homem com uma manta sobre os ombros, e que ainda assim parecia passar frio. Este andava, no que ele achou um belo presente do destino, em direção ao seu carro.

Virou-se para a direita, apalpando no porta-luvas a sacola, seria ele o escolhido, pensava na alegria que ia dar ao homem e a si mesmo. Num gesto rápido virou com o volume em mãos,  e então o sorriso se dissolveu de seu rosto. Havia um cano curto e fino em frente , e uma boca semi-banguela que dizia:
- Me passa seu dinheiro agora!
- Mas é exatamente isso que ia fazer, amigo. Vire essa arma para lá, tenho três mil reais e eu já ia te dar.
- Está de brincadeira né, filho da puta? Passa a grana ou eu atiro!
- Mas essa é a grana, vou tirar da sacola para você ver – disse, e dirigiu a mão trêmula para o saco.
- Acha que me engana? Nem fodendo que você me daria algo, eu é que vim te roubar.
Não houveram dez segundos entre o xingamento de um e o pedido que clamava por calma, do outro.

Aqui, nesse texto, jaz Ivan Cardoso da Silva – brasileiro, músico, ex-advogado, deixou um filho, pai, mãe, e uma namorada feliz – morto em tentativa de desapego. Crime: se atrever a desonrar o papel de um ladrão.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Passa amanhã, mundo!

Vou mudar o mundo
Ah, se vou
Mas não hoje
Hoje meu relógio acordou errado
Me importunaram pela manhã
Briguei com o pai
Chutei a porta do carro
Por conta do processo que não sai

Infiltrar-me-ei em todos os casos
Não éticos
De burocratas sociais
De crianças que nada temem (nada tem)
Serei anarquista de boteco
Esquerdista e anti-clero
Mas amanhã que serei
Hoje o tic tac é outro
É minha mente transformada
Em quadro surrealista
De cores foscas e fortes
Que são meus erros
Amores
Fragilidades
E temores

Hoje tenho treze contas para pagar
E a Caixa Econômica Federal
Não se importa com os poetas
Dá-me friamente o recibo por ser mais um
Cuja beleza e potencial são prisioneiros
Como nossos tostões
Antes do quinto dia útil

Hoje estarei inoperante
Amanhã mudo o mundo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Um grito sincero.





Hoje acordei com uma vontade absurda de deixar minhas palavras fluírem num texto de entrega e honestidade. Porque eu imagino que quem lê o que escrevo e gosta, sente de alguma forma uma identificação, e nos encontramos - no meio de uma infinidade de códigos diários gritantes que nada dizem – através de palavras silenciosas. Portanto, mais do que eu querer, acho que vocês MERECEM ouvir um grito sincero.


Eu, que há tempos mantive uma linha racional-cético-medrosa, buscava incessantemente me encontrar nas razões do mundo, nos porquês das palavras, nas objetividades e impulsos nervosos que causam essa ou aquela sensação na gente. Tudo muito explicável. Mas hoje eu acordei envolvida em dois braços quentes que me fizeram perder, escancaradamente e de uma vez por todas, todo o prumo das certezas.

Olhei para o espelho e resolvi assumir pra mim mesmo que eu estava amando. Pois é meus queridos, e não vou dizer paixão, ou tesão, ou nada que envolva coisas efêmeras e passageiras. Porque o que eu senti e sinto com aqueles braços, boca, mãos e olhos é uma forma de palpitação ligada no ON, uma vontade de largar mão dos compromissos, mandar as formalidades, futilidades, hipocrisias e invejas alheias à merda, simplesmente para poder contar para cada ser vivo que me rodeia, o quanto eu ando feliz e viva, e quanto vale a pena acreditar num sentimento.

E não, não é a relação dos sonhos dos meus pais, não seríamos casal que enfeita a revista Caras, é fato. Mas eu fui bundona uma boa parte da vida, quando eu me escondia atrás do meu ceticismo, agora mais do que no direito, me sinto no dever de, como ser humano, me entregar sem medo. E é o que tenho feito.

E não dói, ouçam e me acompanhem, não dói. Às vezes dá umas pontadas de tão bonito que é. E dá até uma vontade de chorar, junto com uma de gritar e de gemer, cheirar, morder. Isso é vida. Isso é conhecer há dias e saber que vocês se conhecem de eras. É falar uma palavra ao mesmo tempo, é chorar pelos mesmos motivos e lutar pelas mesmas causas. É saber que falar sobre amor é muito mais produtivo do que remoer mágoas. E sentir as mesquinharias do dia-a-dia como um lixo que será varrido, sem trauma , para fora de casa no fim do dia.

Esse texto é uma analogia ao amor verdadeiro, sem firulas, sem ferramentas rebuscadas, apenas uma verdade condensada em palavras... Uma celebração à sensação de não apenas querer ter uma pessoa, mas querer crescer como ser humano junto a ela, e vê-la feliz, pois não há coisa mais linda do que aquele sorriso sincero que faz tremer até seu dedo mindinho. Um texto simples, mas humano e doce. Como ver de perto uma palavra que já estava riscada do dicionário. E escrevê-la novamente, repetindo-a em voz alta, sem medo. Apenas com a leveza da alma e a certeza da entrega, que é o que realmente faz tudo fazer sentido nessa vida.

domingo, 3 de abril de 2011

Das cores vivas de aquarela





Perdi minhas idéias
Compromissos
Saudações
Perdi a rota
E a hora
Cansei-me de todas as coisas
Práticas
Táticas
E resolvi deitar a cabeça
Num travesseiro
Não meu, nem seu
De nós:
Um descanso calmo cheio de cheiros

Depois do afago
Nas duas pedras
Suaves, lisas
Depois do abraço, do perdão
Do auto-perdão
A racionalidade fulminante
Saiu fugida
E (obrigada!)
Foi você que expulsou
A duros e apaixonantes
Gritos e sussuros
O que tantos chamam de medo
E eu chamo de “o mal da paixão
           [que não se realiza sem a entrega completa”

Tanta sede, tanta água
Duas mãos entrelaçadas
Meio a camas, pernas, bocas
Olhos e palavras
Entrando como um feixe de luz
(É muita luz a força dela)
Nesse vazio prestes a se dar
Em cores vivas de aquarela

Duas flores
Uma verde, outra azul
Voam pela cidade
Num céu que se desfaz
E chega a encandear
Dentro da etérrea e fina paz
Um hálito fresco
De beijo, mordida voraz
Gritando ao crepúsculo
O erro mais bem programado
Que um desacreditado amante poderia acreditar

quarta-feira, 16 de março de 2011

A senhora do ônibus.




Através do vidro antigo do ônibus, eu observava a paisagem da manhã invadindo a cidade. Um céu de um azul brusco e vivo coloria um dia que se iniciava, enquanto  mulheres, senhores e  garotos se entreolhavam com antipatia, buscando no aperto da passagem  do coletivo um motivo para  libertar a vida cansada que os atingia. Eu, em minha paisagem interna, menos azul e fresca que a externa, também me desaguava. Era o prazo final para entrega do serviço que eu tinha que já ter finalizado. Tanta responsabilidade me cabe. A conta do cartão de crédito que abusava da minha conta bancária, meu irmão que falhava com meus pais, o amigo que já não estava mais por perto, a colega fofoqueira de trabalho, tão frustrada e negligenciada, cuja essência eu buscava há meses encontrar, mas fracassava. Nuvens e mais nuvens daquilo que de maneira alguma se mostrariam capazes de prever o que eu estava prestes a sentir...

Dois pontos antes de eu descer, vi levantar do assento uma senhora: empregada doméstica de um antigo bairro em que morei, eu bem lembrei dela na hora, porém não do seu nome. Mas foi tão melhor assim, pois não pude etiquetá-la, e me diga se não é isso que fazemos todos os dias?  Etiquetamos uns aos outros como mercadorias, tornando raras as vezes que conseguimos verdadeiramente enxergar com a humanidade que nos cabe e verdadeiramente nos torna um só.

Felizmente, da voz dela eu lembrei: uma voz fina que fazia dueto com um jeito simples e carismático de gesticular. Olhei para aquele corpo cheio de carne, apoiado em dois chinelos gastos, e colorido por uma pele morena beirando a negra. Cabelos encaracolados ao extremo, e mais da metade deles brancos, entregando uma experiência já adiantada daquela vida que certamente não fora fácil, que certamente não incluiu festas chiques de alto escalão, nem vantagens atingidas através de mestrado, doutorado, pós doutorado; ou através de qualquer curso intensivo em puxa-saquismo. E era isso que me buscava, e tocava-me de maneira a encher de lágrimas uns olhos que andavam secos, áridos como a brusquidão entre as pessoas.

Senti-me vermelha, quente, um bicho em ebulição. A morte em vida talvez seja pior que a morte literal, mas pertence ao pacote de condições humanas manter-se em morte, e muitos utilizam essa capacidade com esmero. Mas a senhora não. Em agradecimento e êxtase,  quase gargalhei olhando para ela, que sorria branda,  olhando para um céu azul que ninguém mais parecia notar. Ela estava pronta para limpar mais uma casa. E depois, cansada, voltar para a sua, tirar aqueles chinelos gastos, deitar folgada no sofá; e contar, numa voz cortante, histórias boas para seus filhos.

domingo, 6 de março de 2011

Leite, café, uma pitada de ironia e muito amor.





Quando a conheci, achei seus olhos verdes lindos. Enquanto ele tinha um sorriso deslumbrante. Eu, vendo de longe (a gente nunca sabe o que realmente se passa com um casal), reconhecia um exemplo para os tantos outros casais, e inclusive para mim, que fugia dos relacionamentos, naquela época, como uma gazela de um felino faminto. Eles conseguiam a proeza de  me fazer refletir que não seria de todo mal me juntar com outro, numa espécie de um só corpo.
Quando os vi separados, tive que conhecê-los novamente. Aqueles olhos verdes já não estavam mais tão vivos, havia um cinza chuvoso neles. Havia alguns quilos a menos também, que não escondiam um amor doado que tinha sido jogado aos céus. Qualquer ser sensível (o mínimo que fosse) sentiria vontade de abraçá-la e tirá-la daquela torpe sensação de luto. Minha vontade era dar-lhe a mão, salvá-la daquele poço tão injusto, era uma sensação violenta de animal querendo salvar seu igual.
Foi preciso re-conhecê-lo também, porque seu estado era de furor e desconhecimento. Ela sofria, ele desabrochava. Buscava sabe-se lá o que do amor. Buscava o mundo, acreditava que o mundo tinha muito a lhe oferecer. Eu, também me reconhecendo naquela situação que tantas vezes me afastou, ao invés de aproximar da felicidade, olhava sem entender, como para mim mesmo. Olhava para o amor  se desfazendo a olhos vivos, em troca de auto-estima,  de convenções sociais, medos, frustrações, ciúmes, cansaço, mornidão. Era tudo que o tão aclamado amor trás numa enorme bagagem, apesar de todas as tentativas humanas de negligenciá-la. E nesse caso, a bagagem de sentimentos veio vomitada toda de uma vez para ambos. E vem vomitada de várias formas para todos nós, como uma moeda de troca pelas tantas sensações de vida em explosão que o amor é capaz de causar.

Hoje , estou sentada em frente a um palco olhando para eles dançando, e  se olhando com paixão. Não vou me prender ao contexto que explica a volta do casal. Mas eu vejo um amor escancarado à minha frente, vejo olhos entregues, saudades e vertigens de afeto descompassado de ambos os lados. E, obviamente, não me atrevo a tentar compreender, sou só uma filha do amor, como todos nós. E essa é a maior ironia da vida, porque nos embebemos todo santo dia em racionalidade, mas o maior fruto da vida, que nos encobre durante  todo percurso, é simplesmente inexplicável. E é ele que está dançando e me sorrindo agora,  mostrando que a mistura do leite com o café se mostra tão mais bela do que dois líquidos separados e crus, e provando que duas vidas muitas vezes precisam se desencontrar para poder fazer brilhar novamente (e como nunca) dois olhos e um sorriso.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Homenagem a um velho sábio.

Já me disseram que a literatura engrandece no sentido cultural, que lendo você aprende mais palavras, aprende a falar e escrever melhor, além de estimular a criatividade. Ok, um belo incentivo para se ler mais, não? Até um tempo atrás eu achava o suficiente, até que conheci Roberta.
Roberta é linda, olhos grandes, rosto delicado, apesar dos lábios carnudos. Tem corpo de beldade, suas medidas abrasileiradas (digo isso porque seus maiores atributos certamente agradariam qualquer brasileiro – vejam bem, estou generalizando) ultrapassando o ideal. Ela é a beleza e estonteação transposta em uma única imagem.
Quando a conheci, meio esbasbacada com tanta informação que chegava à minha mente,  quase deixei passar coisa importantíssima: ela dizia muitas coisas superficiais, e parecia muito mais interessada em si própria do que em qualquer outra coisa.

Pois seja, passaram-se alguns meses, e eu já nem lembrava muito da moça, em verdade. Fui selecionada para fazer uma viagem a trabalho e imaginem só, a garota também foi. Estava eu, no ônibus da empresa, em meu tão aconchegante silêncio causador de reflexões e sonos tenros, quando ela desanda a falar. Era o tempo, o preço das coisas, sua mãe, sua maquiagem, e vocês estão levando roupa chique??
Eu, há tempos uma pessoa de calma reconhecida, de paciência admirada, e às vezes até criticada por falta de ímpeto raivoso,  depois do décimo quinto “eu” dela, comecei a me espantar com minhas reações. Olhares de fuga, mãos que se cerravam, um abrir  de janelas onde o ar inspirado não parecia suficiente, um arfar de pulmões que lembrava um cão prestes a atacar. E os pensamentos? Estes são as piores reações, porque nos tele-transportam para diversos lugares. Mesmo você, que costuma se manter em clima temperado, uma zona de conforto habitual e vantajosa, onde quase nada te impede de sentir prazer, começa a de repente vagar pelo deserto. Falta água, você amolece, sua, grita, pede ajuda, e nada.

Como tentativa desesperada de fuga, resolvi pegar na minha bolsa o livro de crônicas do Carlos Drummond de Andrade que havia comprado no fim de semana. E mesmo com a voz esganiçada que não desistia de chamar a minha e todas as atenções possíveis, consegui mergulhar no que lia. Li uma crônica chamada “Os bichos chegaram”, onde o escritor modernista, inspirado pela falta de humanidade do ser humano, se desdobra em criatividade e paixão para falar sobre os animais. Depois uma chamada “A moça deitada na grama”, que dá título ao livro, e relata um gesto de liberdade de uma moça que resolve se jogar na grama de um parque público, como um mendigo. Por último, uma salvadora crônica chamada “A moça e seus filhos”, que trata de uma senhora que não havia se encontrado no amor homem/mulher, e era a velhinha mais amorosa com tudo e todos: havia encontrado o amor pela vida.

Foi como tomar um diazepam, rivotril, ou mesmo tomar um xote de vodka. As sensações de desconforto pareceram distantes, e eu que já estava até pequena em meu assento,  olhei para a moça que continuava a falar na minha frente;  enxergando, agora com clareza, seu grito desesperado.Respondi com um sorriso, como se fosse uma velha amiga. Ela de repente se calou e despejou o peso do corpo, já rijo, no encosto do assento. Ela era uma pessoa, era minha companheira de mundo-louco-varrido, como eu não havia notado antes? Minhas mãos relaxaram, eu consegui inspirar o ar puro que vinha de fora

Devo dizer então que a literatura pode salvar seu humor, seu dia, até seu vazio. Não leve remédios na bolsa, leve Carlos Drummond de Andrade consigo,  ele pode salvar a falta de nobreza que acomete todo ser humano hora ou outra.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

À escrava livre.

O que te faz tão indomável
É essa alegria 
Com que me trás notícias tantas
Ainda num sopro de tristeza
De um passado que ao longe veleja
Despede-se
Doce, dura e ampla

Labirinto dentro de círculo
Delimitado por linha
Em nada conveniente
Ultrapassada por palavras
E gestos de uma aquarela
Vermelho-branco-valente

Busca e doa-se, inteira
Num pecado onde poucos podem
Verdadeiramente tocar
Atira-se em abraços
Farta-se em abusos
Encontrada no sorriso de mulher
Depois brinca, refeita
E que lhe olhem, culpem,  julguem
O que é seu - intui sem mágoa
Ninguém mais poderá tirar

Desagarrara, ventre, busto, amor livre
Crioula liberta antes da abolição
Jamais jogaria  em objetividade
Tantas passagens e alegrias em vão

Vida ampla de amiga, de mãe
Fala limpa de irmã, de aluna
Sempre prestes
Por vezes bruta

Beije o filho!
Abrace o amigo!
A marca está posta
No agora, ou no futuro reticente
Não à toa existem encontros
De vidas de desencontrados
Corações independentes

E é de triste surpresa
O martírio desta poetisa
Vai, e voa!
Que daqui abro 
Também minhas asas
Numa homenagem ao encontro da vida
Ao reflexo da ingenuidade
E de uma incontida verdade
Num sorriso de amiga
E uma apreciação
Ao amor para o qual
(Eu bem sei)
Não haveria despedida

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O atalho para a felicidade.




Corpo cansado, olhos abertos. Um dia cheio de atribuições me aguarda, rogo por sono, ele não vem, meu coração insiste em bater acelerado. Meus pensamentos divagam por extremidades, filosofando num vão de memórias.

Passo os olhos em meu mural de fotos, vejo uma mistura da minha presente Bauru com minha passada, e por vezes presente, São Paulo. Diversas memórias me pipocam a mente. Penso no que tem me impulsionado, me pergunto se estou feliz. A resposta é morna, não me deixa frustrada, mas também não me põe em furor.

O que nos leva a ser quem somos? Tenho pensado muito em escolhas profissionais, rumos amorosos, maturidade emocional, e tantas outras coisas que são peça chave para a tão aclamada vida de plena felicidade. Mas espera, quem foi o desbravador que não nos deu o mapa dessa viagem sem fim?

Aproveito a passadela de olhos pelas fotos pra procurar uma resposta em meus queridos amigos. Uma vive uma vida de semi-casada com um mesmo rapaz há anos, faz arte. Estará feliz? Outra teve uma linda filha, um está atuando no ramo musical, outro faz direito. Um gosta de arte, é sensível, porém se dedica noite e dia a cortar, tingir e fazer escova em cabelos tão falsos quanto suas donas. Estarão felizes?

Nem me atrevo a me enfiar nos questionamentos acerca da felicidade, sei bem o quão relativo é isso. Mas de uma forma ou de outra, há alicerces fortíssimos em nossa vida que, obviamente, se sozinhos não nos constróem, se edificados com bom material e árduo trabalho, dão uma boa guinada no tal caminho pra ela. Me pergunto se esses alicerces tem mantido o prédio deles em pé. E por fim,  com coragem, me pergunto: e o meu prédio, a quantas anda?

Se muitos utilizam o clichê do “caminho da felicidade”,  eu que escancaradamente repudio os clichês, ando querendo um atalho ou mesmo um novo trajeto, com menos mornidão e mais cor e vida.

Prefiro acreditar que não há mapa pra caminho nenhum, e que o caminho se faz com naturalidade quando se aceita ser. Isso mesmo, falta a tantos, e muitas vezes a mim mesma, um aceitar-se no sentido mais profundo e livre da palavra. Parar de se cobrar, de se boicotar, de não aceitar o caminho obviamente mais fluido da sua própria personalidade.

Foi por esse motivo que eu não me permiti viver trancada num laboratório, cheio de gente competitiva, e ordens hierárquicas desumanas. Bem sei que o mundo real é cheio dessas, mas se for pra me esfolar num ringue, que seja por algo que me dê tesão. Essa é a ordem, tesão, pelo amor de todos os deuses... Tesão nas nossas obras diárias!

Se o corpo aceita uma rotina chata, o cérebro que de bobo não tem nada planta sementes em nosso sono e não nos deixa dormir. O meu, precisado de serotonina, adrenalina, noradrenalida e outras tantas inas,  me tira o sono e pipoca a mente. Não tem como enganá-lo, e que bom, no fim das contas. Porque se não fossem minhas divagações eu não teria levantado e escrevido esse texto que me revigorou as idéias e escancarou o quanto tudo anda chato, e quanto é tentador se acomodar. Ah, escrever é mesmo uma libertação!

Bom, agora que ele já deu seu recado, meu sono voltou. Eu que também não sou boba, e quero viver em equílibrio com ele, vou aproveitar e descansar, para amanhar fazer bem diferente e buscar uma aquarela para o que anda branco e preto, e cortar esse caminho batido, porque só quem se aventura sabe o quão melhor é  fazer o próprio caminho.